Consumi bem umas 40 folhas de sulfite. Nada materializava.
Senti agonia de mim, pois nada mais me distraía. Convivi comigo, na beleza e na desarmonia.
Há ela, e sem ela pergunto o que seria. Quando fico muito insensato, ela mia. Arranha minha preguiça, destroça minha anestesia.
Senti falta das paredes, 23 faces. Se contar como eu, chegará nesse número, tente. Fiz assim:
Lembrei-me da porta azul, da prateleira de ervas e medicinas, da bandeira da luta pela terra. Abri de novo a geladeira, e bebi água enquanto regava a samambaia. Olhei rapidamente pra janela, vi a copa das árvores lá na avenida. Fizemos tantos armários, de troços e paninhos.
Sentei-me no sofá-pallet, degustei com os dedos o couro do atabaque. Girei no centro do seu quarto. Imaginei-te um mundo. No banheiro, revistei a transa, sob a luz, sob o chuveiro, sob teu domínio.
Um quarto esquecido, ao fundo do AP, entregou-me seus diferentes momentos. Minha chegada assustada, a ausência vazia, teu corpo infinito, noites de poesia, teu abraço e um pano por cima. O sufoco de duas grandes vidas, resumidas nesse canto, assombrando as vizinhas.
Lancei-me no fundo do banheiro, claro e esverdeado, que nasceu entupido.
Sob a luz negra da sala, te escrevo agora na mesma madrugada, em que entrei em casa e desabei em alívio e aconchego, enquanto você dormia.

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