Quem sou eu

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Me descubro a cada dia, me transformo a cada novo passo e a qualquer momento ao dobrar uma esquina. É impossível ser descrito de maneira estável. Conheça-me através das postagens e algo mais.

23 de mai de 2017

Klaro

Hoje senti falta
Do teu cheiro, jeito e gesto
Senti falta do teu jeito de não saber conversar
Do teu jeito de não saber amar
Senti falta de querer saber os teus não saberes
Hoje me faltou tua frase, tua voz, me faltou a espera
Hoje senti falta do teu gosto musical
Do modo como tu quase não acendia um paiero
Do jeito que se esforçava pra tomar meu café preto forte
Hoje me faltou sentir o stress que tu me trazia
Faltou eu pensar no quanto você era azia
Me sobrou um tempo infinito, sem planejar nossos próximos dias
Sem planejar receitas, surpresas, passeios
Sem falar de macumba
Sem falar de bruxaria
Hoje me sobrou reflexão
Sobre meu jeito mandão e carnal
Sobre como invés de açucar, eu sou sal
Sobrou eu e as sombras de nós dois
Sobras de lençol, de almoços, de troças, alvoroços
E como num mapa, pontuei cada deslize que cometi
Sem lembrar das tuas culpas e pesares
E me vi cercado numa ilha de mim mesmo
Seremos todos ilhas ? Impenetráveis e conservadoras?
Hoje me vi te querendo
Querendo seu ser
Mas não você.



Eduardo Bueno

16 de mai de 2017

Espaçotempo

Quisera eu ter teu dom
De musicar a vida, provocar o som
Conduzir os dias no teu ritmo
Música pra mim era teu grito, teu gemido e tua voz
Era tua risada na chegada e o soluço do teu choro na despedida
Era o latido, o miado, as risadas infantis
Me expresso pelas palavras
Espresso
Te expresso na saudade que sinto
Te expresso nos versos, naquilo que é etéreo e verdadeiro
No que é passageiro
Feito as ondas que insisto em querer navegar
Qualquer dia, qualquer estação
Pra me afogar sem receio
No teu mar
No teu seio
Quisera eu te contar das minhas alucinações
E das minhas coisas reais
Dos sofrimentos que se esvaíam quando davam lugar a suas lembranças
Das minhas noites escuras
E como entrei de vez naquela dança
Sozinho numa lata
Na madrugada da metrópole
Era o avião, a terra, a barraca, os sonhos
Era tu de novo e permanente
Mas conto só mesmo a mim
Várias e várias vezes
Que somos só eu e a solidão
Desde os nossos meses

Eduardo Bueno

4 de fev de 2017

Foda C

As vezes era dificil
nem tanto pelos ares
ou muitos pomares a transpor
mas pelas malicias ausentes
ou pelas sedes grandíssimas e muitas, e mútuas
As vezes até doía
quando se pensava não enxergar ou não ver
Nenhuma saída era a preferida
e de matriarca nasceu-se ferida
fera gélida
estuporada
pelas sobras e pelas faltas
cabeça torta batendo em porta até rachar-se
Encontrou num beijo as trincas destrancadas sem chaves
e as mãos sanavam as carnes
nas ausências
e nas sobras dos desejos
Já virava vergonha
mas não se impunha
acumulavam-se contas, valores, dissabores
sem quem cobrar, por quanto, por tanto, por falta de tempo, por falta de compreensão
comprimido complexo
e se fugir presta atenção
foge em mim ao invés de fugir em ti
sonha com este teu sonho acordada









Ninguém

7 de jan de 2017

Das barrancas da Ribeiro

Faz tempo
Que o tempo passa
Que o Sol vem e vai, tentando enganar quem o persegue ou dúvida das suas gentilezas
Tempo
Passou e nem foi visto
No banco do colégio
Na quadra da escola
Em frente a lousa naquela palestra
No banco do parque
No sofá da vó
Na espera pro teatro
No onibus noturno da calçada abandonada
No parque
No sofá da mãe
No metrô
Na web
No aeroporto
Nas lágrimas
Nos sorrisos
No banco dos carros
Na praia
Na chapada
Na ocupação
Nas barracas
Eis o ponto em que o tempo se converge
Um agora, onde todo diferente é único
Um big bang a cada instante, onde tudo se acumula e tudo pode acontecer
Já faz tempo
Que o tempo leva
Que o tempo deixa
Um bruxuleio, um esqueleto
Faz tempo
E a sensação é de um tecido fino demais
Que foi sendo puxado
Como que pelos dedos de uma criança que esfiapa seu algodão doce
Se saciando, aproveitando cada segundo de um doce tão doce que não cansa
Puxado
Por uma criança filha do tempo
Que sem tempo de se apresentar
Passa e puxa
E rasga
E esfiapa
E deixa pois no agora o resto, o traço
Um sem-pedaço de vários outros tempos
Que foram um agora
Que se fizeram tudo que poderiam se fazer
Pra se acabar
Pra renascer


Eduardo Bueno

21 de dez de 2016

Inserto

Já não era sem tempo
A presença dessas ondas revoltosas
Que tanta falta fazem na completude das tempestades
Na profundidade desse Oceano inexplorado
Sombras do náufrago
E a recordação do navegar
Era ilha ou continente?
A direção daquele flutuar





13 de out de 2016

011 capital

Explodiu
Foi caco pra todo lado, machucou, cegou, reprimiu
Explodiu
"cadê ela? cadê eles? cadê ela?"
Ali! Correu pra encontrar
Ela tinha os olhos assustados, de um desespero fatal
Mas não pelo estouro das bombas de efeito moral
Mas pelo efeito de tudo que as explosões significavam
Os retrocessos, as repressões, os desamores..
Se construíram assim, no meio das explosões
Das canções sincronizadas, gritos de luta
Punhos erguidos em resistência
Mãos cerradas juntas, em persistência
Rolava acusação fanfarrona
Dele ser assim, pegado, grudento
E ele nem se preocupava em entender
Aproveitando cada momento
Que um dia a gente ta correndo de PM, suarento
N'outro a gente toma toddy no vento.
Coitado
Achou que cativava
Se abriu demais
Se expôs daquele jeito que já tinha até esquecido
Não negava nada
Deixou ela assustada
Pensou que cativava, feito o pequeno e a raposa
Lembrava daquelas conversas rasas, que chamavam pro mergulho
Do susto dela deve ter nascido o medo
De se enrolar como não se enrolava
De falar o que não falava
Sentir o que não sentia
De abandonar pelo que lutava
Talvez nem se deu o trabalho de entender
A significância de cada gesto
O verdadeiro ato em cada protesto
Toda luta precisa de uma bandeira
De um tempo pra curar a canseira
Nem cabe mais nas palavras
A expressão de tamanha impressão
Nem tem mais o que caber
No buraquinho feito pela emoção
Mas ainda é e será
O melhor lanche bagunçado
O bom bolo encaldado
O super atraso na estação (4 capítulos do mesmo livro! )
O mais formoso cabelo encaracolado
.. Talvez o último texto não politizado..





Eduardo Bueno








18 de jul de 2016

Eras

Viu denovo
Pelas costas
De novo
Viu outra vez,
O que via de perto, quando tocava, quando sentia
Sentiu de novo
Pelo tanto que perdia.
Perguntou outra vez - pra si
Sobre o que junta, o que unta, e o que separa
Sobre o que sobra sobre tudo
Tinha coisas com seus nomes
Tinham nomes com suas coisas
Passou
Ficou
Feito foto quando captura pra sempre aquilo que sempre passa
Sentou denovo, com a língua a trabalhar
E a vida vivia por si só
O que era só vida.




Eduardo Bueno