Quem sou eu

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Me descubro a cada dia, me transformo a cada novo passo e a qualquer momento ao dobrar uma esquina. É impossível ser descrito de maneira estável. Conheça-me através das postagens e algo mais.

10 de jan de 2018

Abril a 3 anos

Acordei precisando me curar
Dentro de mim, soube onde procurar
Abri o livro que me deu
Esse que me ensina o que os espíritos há muito descobriram
Que me alimenta o espírito
Abri o que ainda existe de muito nosso
Só seu, só meu
Em um saco maltratado, nosso passado bem cuidado
O milagre do teu cheiro resistindo ao tempo
Me abraçando feito vento
Me acalmando de fora pra dentro
Quem foi você?
Uns papéis bem amassados contam da breveza profunda do nosso tempo
E me surpreendo ante a revelia de que minha memória se engana
Pois foram horas
O que pra mim foi uma vida
Apagaram se as fotos
Apagaram se as pegadas beira mar
Acolheu me, mais e muito que qualquer abraço
Que não o seu
Hoje me curou novamente
A memória resistente
A saudade presente
De que em mim você viveu

Eduardo Bueno

12 de dez de 2017

Querência de partir

E a gente se desespera
Num escuro muito claro:
Não há fuga!
Hoje não tem padaria nem sorveteiro
Sofrimento o dia inteiro
Que a pior prisão é aquela
Dá impotência sendo maior que a liberdade
Meu choro é verdade
Discursos já nem me comovem
Perdi os abraços que me envolviam
Abdiquei das cenas que me construíam

Foco sempre centrado
Concentrado
Lente convexa
Perplexa
E um mundo todo a se esvair
Nem lento nem rápido
Na velocidade que se deixa ir

Mas tem sempre muito mais
Pra perder, pra se perder
Tem sempre muita poça pra se afogar
Tem sempre um amor novo pra se amar
E arrepender
Tem sempre um ciclo pra se fechar
E um copo pra esvaziar

Meu governo é desgoverno
Desgovernado
Amigo de desgraça
Companheiro de arruaça
Desce logo outra
Em outro corpo
Em outro copo
Cachaça, mordaça
Residentes dá madrugada
As curvas lapidadas
E as saudades se somam
Traçando reais ilusões
Carrossel unicórnio
Carrossel
Solidão chapada
Solidão
Inalcançável clube
Inalcançável

Finda Dinda
Finda tristeza
Finda



Eduardo Bueno

8 de dez de 2017

Foi

Teu êxtase de me ver chegar só não era maior que meu desdém, pensando outra vez "que hora posso ir embora?".
E o afago valia menos que o trago ou o gole.
Valeu a pena?
Pena porque sempre foi penoso, subir escada, torcer o nariz, lavar a louça.
Vi a sombra de um gato passando sobre o muro enquanto vc dormia em meu braço. O braço latejou e eu quis ser o gato. Odeio gato.
Lembro de tudo que eu quis esquecer fechando o portão e ajeitando a mochila. Lembro principalmente que faltou um paiero, que os bares ainda não haviam abrido.
Não ria, mas não tem nada a ver contigo. Nem eu nunca tive.
Expandindo esse monte de letra, qualquer história se encaixa entre as linhas. Escolhe uma que tu quer , bota aqui, chora ou ri.
Eu rio.
Rio que deságua no mar, mar feito de vários nadas, cada um mais vazio que o outro entre um papo e outro copo. Álcool alivia mais meu corpo que minha mente, porque o cansaço já se sente no braço, na perna e na fala arrastada. Quero mais nada.
Me perdi no dia que sua carta fez eu desviar meu amor; me perdi no dia que eu ia te substituir na estação de trem e na baixada santista; me perdi no dia que acordei de madrugada e você tinha ido embora; me perdi no dia que eu me achei perdido, e até hoje não me acho. Quantas vezes você, quantas vezes qualquer um.


Eduardo Bueno

1 de dez de 2017

Maizum

Dessa vez ia
Se entregava feito peixe que se vê livre no oceano
Os poros tornavam florestas, sentindo, sensíveis, balançando com os toques
A razão era feito brisa, passageira, leve, nem se sente mas refresca
Dessa vez ia
Botava camisa e boné
Vestia a ideologia e a fé
Usava do megafone e dá melhor voz
Fazia silêncio e consciência na mesa de reunião
Que o grito era pra avenida
Dessa vez ia
Alugava um livro, emprestava um caderno
Tornava verdadeiro o homem moderno
Rascunhava linhas, sonhava em trilhas
Dessa vez ia
Casa bonita
Palacete assobradado
Fingimento demais
Verdade de lado
Dessa vez ia
E toda vez foi
Procurando por si
Pra nunca se encontrar

Eduardo Bueno

28 de nov de 2017

2A

Queria saber por que sinto tanta saudade
As vezes nem quero mais saber
Que o próprio querer faz a saudade
Queria entender por que lembro de certas coisas
Coisas que via de canto de olho, sem atenção
O cuidado com suas pernas
A cara de nojinho
O sorriso faceiro
Os olhos tristes que acompanhavam as mãos que me vinham fazer cócegas quando eu próprio ficava triste
Não quero entender nada
Por que tentar entender é reviver
E reviver tem me deixado sem fôlego
Fico feito a fumaça que tu fez um dia sobre a mesa de vidro enquanto uma refeição qualquer esfriava
Fico feito seu choro contido na noite que inventei um abajur pra afastar minha insegurança
Sei nem porque escrevo
Sei nem se alguém lê
Mas no final, escrever é como fazer um depósito
Guardamos num lugar seguro o que nos é precioso, mesmo que doa se afastar
E assim não precisamos mais olhar


Eduardo Bueno

26 de nov de 2017

Do desejo

Te vi em tudo aquilo que meus olhos nunca tocaram
Teu cabelo tinha todas as cores e formas
E tua voz todos os timbres
Seu sorriso era tantos
Cada um com um detalhe diferente
Um olho fechado
Um dente pra frente..
Teus abraços eram todos
Mansos, curtos, faceiros, preenchidos, tímidos, desejosos
Teus pés, que tinham todos os tamanhos, iam a todos os lugares
E nossos planos eram todos
E tu é sempre sem fim
Que não há fim pro que não tem começo
Te conheço desde berço
Mas nunca te vi com esses olhos de barro
Só com olhos de calma
E dia a dia tu me lava
Com todas as mãos e palavras
Acariciando todos os pontos de todas as formas
Só os teus nomes
Que nunca lembro
Pois são tantos
E em meus desvairios sempre te encontro
Cada dia um jeito novo
Cada dia um novo conto
Sempre correspondendo
Ao que hoje espero de ti



Eduardo Bueno

Resoluto feito poça

De minuto, diminuto
Não aguento mais teu sussurro teu gritar
Meu silêncio bota o grito nas mãos
E a consciência barulhenta só aumenta a confusão
Escassez de confirmação
Faz dá vida vida escassa, rastro de caça que nunca acha
E a agonia é geral
É medo é grito é fogo
É um pouco de amor pra sobreviver
É um pouco das nossas carnes
Pra ter prazer
Bole, pita, bola, fuma
Que alucinação é anestesia
Que um beijo as vezes basta pro fim dá agonia
Amando é o único quando
Quando se esquece dá escassez
Do porém
Do talvez
Só dessa vez
Queria sentar e fazer fumaça
Ver o trago se dissipar feito mágica
Feito a onda na qual te naveguei
Uma vez só
Uma vez mais

Eduardo Bueno