O som do trovão.. Reconhecia-se nas brumas e nas encostas, nas noites soturnas de um inverno qualquer, com neve a cair-lhe pelos ombros e olhos quentes de uma ira alucinada, lágrimas mornas de dores macabras.
Caminhante da escuridão, espreitava os cantos do mundo como um caçador que vigia a caça ferida, esperando que morra a qualquer instante.. As mãos no bolso mexiam-se freneticamente em torno de um objeto prateado, ultimo sinal de sua vida passada.
As felicidades haviam-no consumido, sentia o peso a cada passo e cada passo era mais curto. Frio.
De uma esquina qualquer via uma janela iluminada, movimentos repentinos e gritos de felicidade.. uma noite de Amor. Não teria a sua, não agora.
Algo crescente lhe invadiu o peito, levantou-lhe do chão.. E assim voou, para longe, para além..
Viu de novo suas companhias, seus momentos, as brigas, as vitórias, viu-se de novo como homem, viu-se uma ultima vez.
Eduardo Bueno

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