Eram dias tensos para o Rei Katoros. Um levante se erguia no Sul de Minâncora - terra da qual era Rei...
É importante aqui, destacar as dimensões de Minâncora. Qualquer Rei que quisesse governa-la deveria possuir força e imaginação fora do comum, além das expectativas. A terra estendia-se de uma ponta a outra do mundo. Possuía cordilheiras, vales, planicies congeladas, picos ensolarados, países inteiros que se erguiam no ar, cascatas que subiam ao céu em vez de seguirem o curso para um dos inúmeros mares de Minâncora, cavernas colossais onde criaturas mágicas grotescas habitavam, sem nunca terem sido nomeadas, clareiras imensas onde gigantes faziam seus rituais, bosques obscuros onde criaturas ainda não imaginadas pelos humanos viviam livres, jardins suspensos e árvores que cresciam deitadas.. Um Rei digno deveria conhecer cada detalhe de sua terra, e fora isso que Katoros fizera. Logo após ter conquistado seu direito a Rei de Minâncora - em uma justa disputa de olho de tundera, contra um cíclope combatente das Tropas Aliadas da Pequena Grande Efígie Monumental Ínfima dos Quinze Outros Universos Galáticos - passou cerca de 8 anos viajando para aqui e acolá, a fim de conhecer cada pedaço esponjoso de terra âmbar, cada gota avessa de água que subia aos céus e buscar e nomear cada criatura que encontrava - sim, um Rei precisava saber de tudo. Durante sua viagem, diversos maços de papel e algumas canetas e lápis de cor foram suas companhias. Os 8 anos de caminhada e aprendizado lhe renderam não menos que 3467 folhas escritas, encadernadas - durante a viagem - em pele de Mancuramá das montanhas - no mundo humano, podemos descrever o Mancuramá como um peixe semelhante a um cavalo, com 2 rostos e 1 olho e que respira pelas patas. Esses papéis foram chamados de Testemunho do Rei, e somente Katoros tinha acesso à eles, não permitindo nem mesmo que os cientistas lessem as detalhadas observações e analisassem os detalhados aspectos de cada criatura vivente em Minâncora:
- Um povo têm de se erguer sozinho, fazer suas próprias descobertas e encontrar meios de fazê-las ante as mais variadas circunstâncias. Um bom governante não pode simplesmente entregar suas anotações detalhadas e sustentar seu povo, e um bom povo precisa de inteligência e destreza o suficiente para encontrar seu próprio caminho.
Katoros era um distinto Rei...
Como dizia, um levante se erguia no Sul de Minâncora, em uma terra chamada Charkoal. Os habitantes de Charkoal eram criaturas não muito espertas, mas bastante obstinadas. Quando Katoros esteve lá, durante 2 meses de seu sexto ano de viagem, ele achou por bem entregar as criaturas uma pequena chama do fogo eterno - como o próprio nome nos faz pensar, o fogo eterno nunca se apaga... a menos que se joga água sobre ele - para satisfazer as necessidades das criaturas e livrá-las de seu intenso medo da escuridão. Mas, como dito, os Charkoalzianos não eram muito inteligentes, e levaram mais 18 anos até que entendessem que poderiam mudar a chama de lugar. Ao tentar realizar essa proeza, uma das criaturas, provavelmente seu líder, havia chamuscado a ponta do 23º dedo da 5º mão de seu braço inferior. Todos da terra de Charkoal entenderam que Katoros havia lhes deixado uma arma mortal, uma armadilha para que caíssem em desgraça - obviamente que chegaram a essa conclusão apenas 7 anos após o incidente do dedo chamuscado. Dessa forma, 25 anos depois de sua passagem por Charkoal, chegara aos ouvidos de Katoros a triste notícia de que os habitantes daquela terra estavam obstinados - eram muito obstinados - a invadir a cidade de Elgarzd - sede do reino de Katoros..
Cabe aqui uma segunda interrupção no curso dos acontecimentos. Elgarzd havia sido escolhida como sede do reino por suas características agropecuárias e geológicas. Belas montanhas erguiam-se por toda volta da cidade, facilitando sua defesa; belos campos avermelhados se estendiam por 3, dos 4 cantos que se olhasse, permitindo assim a cultura de alimentos e da rara fruta Princhokita - descrita anos mais tarde por um visitante humano como "uma fruta esverdeada com pintas rochas, com cheiro de pizza e sabor de abobrinha" - o mais apetitoso quitute de todo o reino. Dadas essas características, Katoros decidira que ali seria um belo lugar para governar e posteriormente criar sua família.
Sabendo da intenção dos Charkoalzianos, Katoros decidira que montaria nas costas de um Malagrando - espécie de dragão voador, com penas no lugar de escamas.. nada fora do comum - e voaria sozinho e desarmado para Charkoal, de modo a evitar um confronto sangrento. ( Em Minâncora, entende-se por confronto sangrento ofensas diretas e mútuas, dirigidas as mães dos guerreiros embotados em aço.. o que nunca acabava bem e sempre terminava em uma discussão formal, onde membros eram arrancados e corpos eram preenchidos com lâminas inimigas).
... continua
Eduardo Bueno

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