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Me descubro a cada dia, me transformo a cada novo passo e a qualquer momento ao dobrar uma esquina. É impossível ser descrito de maneira estável. Conheça-me através das postagens e algo mais.

6 de ago. de 2012

Invisibilidade

Acordou na madrugada, sozinho e no escuro... da janela entreaberta ouvia um ou outro carro que passava esporadicamente na avenida ao lado. Sentou-se na cama e trouxe os joelhos até o queixo.. olhou ao redor e não encontrou nada que o aconchegasse... puxou o cobertor por sobre a cabeça. Fez pra si uma morada, um local seguro, onde podia chorar e puxar os cabelos que ninguém ia ouvir ou ver, ninguém ia acusa-lo nem chama-lo de doente, ou dizer que era fraco ou carente demais... Ali pensava em tudo que dizia, pensava em tudo que tinha acumulado, nos conselhos que vendia... é tão pequeno ser humano, é tão frágil ser homem.. cada qual vive o que vive.. uns são mais fortes que outros.. mais intensos.. menos desesperados.. mas cada um interpreta suas dores e suas alegrias como entende.. chega uma hora que cansa, e o travesseiro não parece mais confortável.
Percebeu que suas palpebras haviam se fundido onde as lagrimas secaram.. um pouco de saliva e dedos ágeis resolveram o assunto.. mas os sentimentos ainda estavam fundidos.. aglomerados em um só lugar.. sem discernimento nem força.. encolhidos em algum canto escuro.
Com algum esforço levantou-se da cama, perambulou um pouco pela casa escura, buscando alguma presença que o reconfortasse.. estava disposto a dar as mãos a qualquer coisa que lhe dirigisse um olhar, que lhe desse um pouco de afeto ou que lhe falasse um 'olá'. Encontrou apenas a louça suja, mas não a vontade de limpa-la.Saiu para o jardim, sentindo o chão gelado através dos pés descalços que se transformou em grama macia e molhada... A luz era apenas a da natureza, e lhe permitia ver tudo.. via o sofrimento que causara, o sofrimento que lhe causaram..ouviu as palavras que nunca haviam sido ditas e sentiu os abraços que nunca passaram de um olhar, sentiu o cheiro da mesa de café da manhã que nunca havia tido, os beijos maternais que nunca tocaram suas bochechas e as pontadas doloridas na barriga que lhe vinham quando interpretava uma folha de papel em branco.
Sentiu os joelhos sob o queixo e a bunda molhada.. percebeu que os pés se desligavam do chão em intervalos regulares e o vento que roçava de leve seu rosto.. ainda de olhos fechados imaginou uma mão feminina lhe fazendo carinho.. mas não pode sentir nada além do vento frio que começara a arder.
Abriu os olhos numa tentativa vã de ver a Lua através do céu nublado, lagrimas percorreram suas pálpebras e fizeram seu nariz coçar.. sentiu o gosto salgado nos lábios e a dor da indiferença do mundo.
No banheiro procurou o frasco que traria seu alívio, desligando seus sentidos por algumas horas.. horas de paz e inexistência. A água desceu mansa pela garganta, como se quisesse dizer algo enquanto cumpria seu papel.
O quarto parecia ainda mais solitário do que antes, e mais escuro... quando acordasse o mundo estaria novamente claro, mas ninguém o veria...





Eduardo Bueno

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