O horizonte laranja escondia muitos dias de carvão. Havia o medo e a timidez. Havia o medo e a negação. Tantos dias se passaram, pra mim e pra você, distantes sem se tocar, em outras eras vividas a anos luz de distância de nossos corpos grudados. Seu cabelo cresceu, minha barba também, a gente cresceu, e fez de pérola aquela ponta de tristeza, embalou em boniteza e alegria, se disfarçou de nós sem nenhum defeito. Mas sempre tinha um espelho quando havia solidão.
Depois de tantos passos a gente se tropeçou, na web, no cimento, no piso, na grama, na areia, na água.. e as diferenças se aniquilaram, feito reação em cadeia ao contrário em endo-reator nucleoelétrico, etéreo feito o tempo, magistroso como o braço espiralado, feito de poeira, em que a gente vive.
Mas um dia a gente se condensa, depois de tanto ferver, e descobre que o estado de menor energia é aquele em que a gente se equilibra, mais espaçado, mais unido, menos fervoroso e mais pungido. E o que se precisa as vezes é de um pulso, uma força que faça a gente se mover como leite condensado nas pás do liquidificador.
Que você me estranha eu sei, entendo que batata frita não pode ir no cabelo, que gritaria não se faz, que no cinema não se dorme.. entendo que lambida é molhada, que minha mão as vezes é gelada.. mas sem isso não ha nada. Tudo é muito igual e a gente se enjoa quando chega a hora de começar um novo dia, por isso que não se guarda um amor embaixo da pia.
As vezes palavras são jogos.. vorazes, pontiagudas feito agulha no lodo ou ponta de cascão de sorvete.. machuca ou deixa mais gostoso.. As vezes minhas fugas são mais pra dentro que pra fora, é mais pelo ontem que pelo agora, mas eu não sei explicar assim feito um doutor, ainda acho dificil derivar função trigonométrica e não entendo as relações fundamentais, da álgebra e da vida; acho que é daí que veio aquele vacilo, e aquele outro também, ou aquele, daquele vicio mais além. Nossas horas são importantes, por isso eu não fico comprando gramas.. deixo juntar de quilo e compro todo o lote, ai ficamos bebados de tanto nós, e ninguém entende porque existe assim tanto de nós dois.
Por tudo de tanto, eu acho que loucura e lucidez se confundem, vivo em cima da linha que as separa, e como bom equilibrista as vezes tendo demais pra um lado ou pro outro. Mas quando machuca a gente para.., tem dodói que não fica exposto, mora dentro da alma e não sai pelo rosto. Tem tiro que não sai de cano e golpe dos quais a gente não esquiva.. Tem noites em que a gente pode escolher não fazer o que for, mas se escolher errado não tem mais escolha. Crescer é ficar cada vez mais acorrentado pelas relações que a gente cria, pelas pessoas que a gente esbarra, pelos bancos que a gente senta e pelas pesquisas que estão fora do prazo.. é chorar sorrindo muitas vezes, e outras tantas é chorar pra sorrir mais tarde, com mais gosto de framboesa.
Aproveita que a gente se acorrentou por esse elo leve, feito de vontade, e nos leve daqui, bate a lama do pé e deixa de pensar no que não é, que aquela varanda ensolarada espera pela gente depois que as crianças forem embora, que o tempo que a gente vive é o amanhã mas também é o agora.
Eduardo Bueno

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