Se condição era criar, isso sabia de perto. Era sempre a mesma imagem do apartamento apertado, de paredes, teto e piso branco, tudo branco, mas manchado. As vezes era tarde e as paredes se alaranjavam, outras era noite e o mundo escurecia. Tinha vezes que era manhã recém chegada, a sacada se enublava e o friozinho entrava pelas frestas. Já se viu bebado, já se viu fumando, já se viu sóbrio, vestido, pelado, com fome, almoçado... mas nunca acompanhado.
Era criação individual ou retrato falado? Especulativo ou famigerado?
O apartamento solitário crescia a cada passo, se abria a cada olhar, mas ainda havia ali o enclausuramento repentino, causado pelo cerceio da liberdade recém adquirida, dos dias que cobram o preço do pensar.. Havia os cantos brancos, três deles pra cada aresta, era um quarto, o quarto. Ordem numérica do objeto de número quatro, ordem das coisas ao voltar do mercado.
Mas a varanda tinha muita história, por isso gostava tanto dela; e nenhuma e dessas de cinema ou de amor, eram muitas de reflexo de si mesmo, reflexão. Do alto dava pra ver a vida corrida, que parecia poder ser evitada; dava pra ver uma cidade grande, onde os prédios cobriam o horizonte; mas acima de tudo, a noite, dava pra ver as estrelas, e se sentir parte delas sem muito esforço.. Assim podia se sentir no seu lugar, perto das origens dos questionamentos mais banais, ao lado dos corpos, para nós, quase imortais.
Por vezes era assim quando fechava os olhos, acordado ou dormindo.. vinha ansiedade com gosto de saudade, um medo do desassossego, e depois de tudo ele, o apartamento.
Eduardo Bueno

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