Mesmo a mais terna tarde de Sol pode ser esfriada; mesmo a noite mais fria, pode ser aquecida.
Depende tão somente de cada palavra e atitude, cada gesto que encanta ou confunde. Ela disse que o amava pela intensidade, pela sensibilidade, pelo jeito de brilhar que residia naquele olhar... mas o olhar dele era tão somente um olhar ja cansado quando se encontrava no espelho, era fosco ali na luz do banheiro. Aceitava assim sem contradição, aquele monte de carinho e um pouquinho de imposição, o que fazer? Lhe dissera que a amava dos pés a cabeça, da fonte de água quente ou fresca, e assim realmente amava. Amava os maxilares, os dentes, a mordida.. a chegada, a permanência e a saída. Amava os fios escuros que desciam do couro capilar, se enrolando pelo caminho naquele jeito novo de se arranjar. Amava os pêlos, pela pele macia, que aumentava o toque e o contato, que estimulava o paladar e o tato.
Dos cantos dificeis vinham os cânticos mais puros, de essência cruel, martirizante , ou de mansa existência, como a dor daquela ausência. Tua liberdade lhe era importante, quando ele a via sozinha, planejando sozinha os planos singulares de pluralidade solitária. Será que ela se amarraria? Em tantas conversas vira que ela era muito mais que um espírito livre, era dessas essências rarefeitas que por aí voam sem brisa, espalhando o encanto e se completando em cada um que lhe dê abrigo. Seria ele o abrigo carinhoso, que abrigaria uma desenvoltura de espírito genioso.. ?
De medo se corroía a estrutura de dias azuis, de olhos acesos e mãos apertadas, de toalhas e lençóis, portugueses e espanhóis, pessoas das américas, américa das pessoas, uma ilha nos açordes, um dedilhado que faltava naqueles acordes. Acorde.
A magia do sentimento confuso é que ele assume muitas formas e se molda aquilo que lhe oferecem, como um leão faminto que saliva pela cenoura, como um papel fraco nas mãos de uma tesoura. Tesouro. A magia da confusão é que dentro dela muitas realidades existem, muitas curvas se dobram e esquinas se aconchegam em um único copo de algo quente ou de alcool frio. A magia, é que mesmo pressentindo certo caos há uma vontade inata de elevá-la em meus braços e correr a um milhão de parsecs por segundo, mantendo o agora no futuro e o futuro no agora, como que para encerrar uma certeza imutável de que tudo muda e não permitir que a muda se enfraqueça antes de saborear seus frutos.
Quantas marcas carregamos de nossas tristezas? Quantas delas serão responsaveis pelo vislumbre insano da infelicidade que não pertence a nossa mocidade? Pois eu sei que moça nenhuma se assemelha a ti em nenhuma cidade. Pois eu sei que és tu mais que meu verbo do ontem, hoje e amanhã; tornou-se - além de mim - meu substantivo, é o bóson que me confere matéria, é cada hemácia que percorre minha artéria, é o impulso elétro-neuronal que atinge meu lóbulo frontal.
Nunca deixei de ser eu mesmo, mas absorvi você.. Tão jovem - uns diriam - mas já cansado de compartilhar tudo com ninguém, ansioso por encontrar aquela que seria um alguém. Essa, que um dia foi aquela, que hoje tem nome, endereço, cheiro e sorriso. Essa que se preocupa com meu sangue e com meu ciso, que corre, mas me socorre quando preciso. Essa que me liga com choro, com alegria, com fascínio, com acaso, com vazio, com vasilha, dessas em que cabem todos nossos sonhos. Essa que me liga, quando a vida me desliga.
Facilidade só parece com felicidade, mas quando a sobriedade chega a dislexia vai embora e a gente vê direito que nem todo oposto do esquerdo deixa de ser errado. Dificuldade rima com dedicação, que rima com motivação, que rima com diferença, que rima com eu te amo. Identidade é o que eu procurava, e quando deixei de procurar o escuro me trouxe a maior claridão, que ofusca meus olhos com a própria luz.
Me redimi ante suas antenas, que me transmitiam o sinal em frequência modulada de amplitude desconsiderada, me diminuí ante teu bombeamento molecular que incidia sobre mim noite e dia. Sentei sobre os próprios pés e te vi dançar, eis que o pó me alcança.. por isso te peço amada: baile mais rápido, é tudo que preciso, da sua brisa girante afastando-me dessa poeira sufocante. Desse teu sorriso inebriante. Não tenha dó de mim, uma vez que não tenho dó de entregar nenhum de meus terabilhões de quarks àquilo que me agrada, que me faz bem, que me suscita a vida, que me chama a superfície. Uma vez que não tenho medo de trocar moedas vazias por momentos cheios de qualquer coisa que você se propor a encher.
É certo que tu me suscita os ódios, as altarquias do maligno, o medo do indigno.. Mas é essa a expressão de uma certeza infinita que me cresce e floresce nesse campo seco por amargura e descaso, por solidão e carrasco. É essa a expressão de que é você quem meche comigo, que me tira do conforto desse abrigo de placebo, que me traz o ódio pelo que há de odioso e me mostra os trilhos donde tenho que me encontrar para canalizar esse desejo de potência.
É certo que tu me suscita os amores, os calores do benigno, a tranquilidade do teu signo.. É essa a expressão da impressão de um mundo novo que tu me imprime no afago de um beijo, no roçar desse queixo enquanto tu derrete e cria os quatro queijos; é essa a impressão da expressão de um desejo nosso, implícito na manipulação de nossos corpos, na noite escura ou na madrugada fria, entre filmes e pessoas, entre prosas, fazemos nossa poesia. Tu me traz esses amores pelo que há de verdadeiro, tu me traz esses amores verdadeiros e sei que minha vida valerá muito a teu lado, não a partir de hoje, mas desde o dia em que seus olhos dominaram meus instintos até o dia em que meu fechar de pálpebras será o derradeiro.
Por tudo, contudo, sortudo, não me limito nem te imito, sou só eu, na fundura de meu grito à correr pra além do infinito enquanto sinto o peso do seu corpo e me expresso na altura do seu grito.
Eduardo Bueno

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