Tem dia que só queria botar pra fora quem vivia ali dentro. Queria deixar o cabelo crescer assim, todo bagunçado, botar pra fora da cabeça o que tinha dentro dela... Queria deixar a barba crescer assim, forte e quente, como um café preto, como o grito de um bardo, forte como a espada que sabia que empunhara, quente como o Amor da Rainha.
Tem dia que queria ser passarinho, voar sem direção, no limite da altitude que aguentava o pulmão, no rumo da batida do coração.. Queria ser pequenininho, pra entender tudo aquilo que vibrava e fazia funcionar.. Queria ser grandão, pra olhar la de cima, pra ver o limite dessa imensidão.
Tem dia que queria ter bota de sete léguas, pra num passo estar ali, e dar a ambos uma trégua.. dar pro coração uma dose bem grandona de toda essa emoção e sentir na pele um gostinho bem doce, um gostinho de amora.
Tem dia que queria madrugada, queria mais daquela vida alugada, sentir assim a cabeça bem menos pesada, sem pressa, deitar no mato e sentir a relva molhada, o cheiro daquilo que "não era nada" mas que era a base de tudo.
Tem dia que queria um pouco menos, queria ainda ser bem bobo, e viver sem especulação, sem toda essa tensão, sem ter que se preocupar com as feridas do coração. Queria pegar o apolo pelas orelhas, assim bem de leve, como só aquelas mãos pequenininhas podiam fazer, e viver a alegria de ter um amigo que não sabe de nada mas entende de tudo.
Tem dia que queria nada, só ter um pouco daquilo que amava no agora, porque hoje ele viu, que ontem foi como um rio, correu, passou, fugiu...
Eduardo Bueno

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