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Me descubro a cada dia, me transformo a cada novo passo e a qualquer momento ao dobrar uma esquina. É impossível ser descrito de maneira estável. Conheça-me através das postagens e algo mais.

17 de ago. de 2012

Apenas

O rodamoinho que se formava no meio da praça era o sinal mais evidente da tempestade que se aproximava. Haviam também o céu castanho-alaranjado que lentamente se tornava cinza-azulado, o uivo do vento por todas as partes e o frio que se estendia com dedos longos e finos pela rua...
Vovó dizia que em dias assim o melhor a se fazer era trancar todas as portas e se enfiar embaixo das cobertas com um bom livro e um copo de chá.. mas eu nunca havia gostado muito de chá. Quando as tempestades se aproximavam, me sentava na garagem ou no terraço, e olhava incessantemente para o céu, até que as grossas e pesadas gotas de chuva incomodassem demais minha vista; entrava em casa e observava o granizo que caia do céu... um dia cheguei a pensar que fosse neve.. até abrir a boca e ter um dente arrancado pelo gelo.
Quando mamãe era lúcida, sempre me esperava com uma toalha seca e chaleira no fogo - leite com chocolate ao invés de chá -, bolinhos de chuva faziam parte do meu processo de secagem, uma mordida pra cada membro seco. Já nessa época eu lia muito, aprendera com mamãe e ainda me lembro de uma tarde tempestuosa em que lemos contos infantis sob a luz de velas.. ainda tenho o livro com a capa queimada pela cera.
Mas agora era só o rodamoinho que eu via através das grades da janela.. e só havia chá na prateleira - quem diabos comprara aquilo? As coisas haviam ficado mais dificeis depois que me mudei, o mundo girava mais depressa e minhas toalhas nunca estavam secas antes da tempestade. Na cozinha o microondas fazia o jantar, na sala, Renato Russo me dizia que eu sabia das coisas quase sem querer, e em meu quarto, eu me perguntava quando foi que tudo saiu do controle. As escolhas ainda eram minhas, mas as  opções eram impostas e eu não conhecia o autor. Pensei sentir uma lágrima escorrer pelo rosto, mas notei que a vidraça estava entreaberta.. começara a chover. Foi um momento estranho e bonito, no qual senti novamente o aconchego de braços amados através da toalha seca e a quentura do leite escorrendo pela garganta.. Um apito na cozinha, o silêncio na sala e o rodamoinho se fora... éramos apenas eu e a tempestade novamente.





Eduardo Bueno

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