Estava deitado em sua cama quando ouviu a sineta tocar. Não se importou por algum tempo, e nem fez questão de abrir os olhos. Até se lembrar de que só havia ele na casa. Desceu da cama e calçou seus chinelos, já estava vestido... gostava de dormir assim.
Ao descer as escadas se deu conta de que seu cabelo deveria estar desarrumado e do quanto sua barba parecia incômoda agora. Sua mente voltou ao dia em que por algum motivo disse que não mais cortaria nenhum dos dois. Não se lembrava do motivo.Mas havia um.
Ao apoiar-se no corrimão viu como suas mãos estavam brancas. Não conseguiu se lembrar da última vez que saíra de casa. E agora essa droga de sineta havia tocado.
Sentiu as articulações um tanto quanto enrigecidas demais, lembrou-se que não se levantava da cama havia algum tempo. Por que é que não se levantava? Havia um motivo. Ele não sabia qual.
Olhou em volta tentando se lembrar de onde ficava a porta. Não se lembrava de ter jogado um lençol por cima de todos os móveis.
Percebeu que não se lembrava de muitas coisas. Porque é que não se lembrava de muitas coisas? Ao buscar seu nome não o encontrou. Seu aniversário parecia não ter nunca existido. Mas o que era um aniversário afinal?
Estranho o modo como as coisas iam acontecendo. Parecia que não dominava suas pernas, mas na verdade apenas não havia mais dores. Não se lembrava do que eram dores. Sabia que não gostava delas. Não sabia ao certo qual o motivo, mas havia um.
A sineta tocou mais uma vez, e o som ribombou em seus ouvidos como uma buzina de navio. Levou instintivamente as mãos aos ouvidos para regular o aparelho auditivo mas este não estava lá. Devia tê-lo esquecido na cabeceira.
Ao abrir a porta não viu ninguém. Não entendia como uma sineta podia tocar duas vezes sozinha. Seria o macaco?
Aproveitou que ali estava e saiu para o estreito corredor que ligava a casa ao Japão, ele não se lembrava de ter pintado as paredes.
As coisas estavam diferentes no Japão, os tigres não mais voavam e as mulheres estavam sempre de cabeça pra baixo. Andou até a esquina que dava para o banco de areia. Decidiu que daria um mergulho pois estava sem os "aparelhinhos" mesmo. A areia estava gelada e muito seca, mas mesmo assim ele continuou afundando pois sabia que haviam potes de morango congelado lá no fundo.
Sua viagem foi em vão pois os morangos haviam virado manteiga... ele não gostava de manteiga.Havia um motivo, mas ele não sabia qual era.
Enquanto pensava na manteiga ordenou ao pássaro que voasse mais devagar pois não estava conseguindo ver os peixes ao redor. Eram tão coloridos que suas cores não tinham nomes, eram feitas de emoção, pois era possível senti-las, mas não descrevê-las. Mas as paredes pareciam possuir as mesmas cores. Ele não se lembrava de ter pescado nem de ter esfolado peixes. Provavelmente fora a chuva. Chovia muito nesses dias. As codornas não saíam de seus ninhos e isso era mal sinal.
O assoalho estava gelado. Decidiu usar as sandálias para aquecer os pés ao invés da cabeça. Um fiapo de tecido caiu em seus olhos, e quando os abriu estava na cama.
Havia uma sineta tocando.
O Autor

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