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Me descubro a cada dia, me transformo a cada novo passo e a qualquer momento ao dobrar uma esquina. É impossível ser descrito de maneira estável. Conheça-me através das postagens e algo mais.

17 de fev. de 2012

Descompassadamente desacompanhado

 No chão o saco de laranjas vazio, - adorava comê-las quando estava impaciente, o trabalho de descasca-las o acalmava - na pia a louça para lavar, e na TV um jornal matinal qualquer. O apartamento ainda emanava aquele cheiro de velhice, de sujeira... há dias que não se preocupava com isso.
 Abriu a geladeira à procura de algo para comer mas só encontrou algumas latas de cerveja e metade de uma maça... odiava maçãs pela manhã, deixavam um gosto azedo na boca. Saiu até a varanda com a lata de cerveja na mão, imaginando quão idiota as pessoas o achariam quando o vissem com a lata de cerveja na mão. Deu mais um gole.
 - Que se danem! - era o que vinha dizendo a tudo, e o que pensava constantemente. 
 Desde o incidente com sua amiga algo mudara dentro de si, a limpeza era supérflua e a cerveja não merecia ficar tanto tempo dentro das latas, sua cama já não permanecia arrumada e o piso do quarto estava começando a gostar de usar camisas.
 Um sonoro arroto saiu de sua boca, seguido de uma gargalhada. Da varanda logo em frente uma senhora fez um gesto qualquer com os dedos, ele levantou a lata em cumprimento e pensou, "Vai se danar mulher". As vezes tinha a impressão de que as pessoas nunca tinham acordado de um sonho bom, nunca tinham tido uma forte desilusão... ele não havia de ser o único, provavelmente era só mais um. Os cidadão desse mundo tem o hábito da educação, ou do egoísmo, no fim da no mesmo, e raramente se interessam por quem senta ao seu lado no ônibus...
 Sentiu uma leve dor no mamilo esquerdo, estava rígido e frio. Percebeu que estava sem camisa sob o ar gélido da manhã:
 - Que bela figura eu sou, parecido com um de meus personagens - novamente a gargalhada, dessa vez seguida por um gole de cerveja.
 Nunca soube bem o que era amizade,- com a idade que tinha possuía apenas 2 ou 3 pessoas a quem confiava seus segredos...não era algo do qual se orgulhar - mas tinha uma sensação estranha quando olhava nos olhos da garota, algo semelhante a mãos suaves que acariciavam seu rosto e acalmavam suas ansiedades, não haveria de ser amizade apenas.., apostou que fosse algo próximo a paixão, que arrebenta no cais do cérebro e lava e leva toda a alma por um caminho inconstante.
 O céu pareceu estar ficando mais claro e a lata mais leve. Instintivamente pensou que varandas rendiam boas histórias... sempre gostou de varandas mas nunca as teve... sempre gostou de garotas....


 A cerveja acabou-se juntamente com os desejos, ao contrário das obrigações, que estavam apenas por começar. Miraculosamente seu rendimento não caíra, dessa vez havia traçado metas ... ou algo semelhante a isso, na sua percepção. Escovou os dentes para que não o julgassem por suas atitudes, lavou o rosto e descobriu um novo homem... Havia agora menos pelo em seus rosto, diferentes adornos compunham sua expressão.. mas os olhos ainda pareciam distantes.. com o mesmo brilho enfadonho.
 Sempre se achou engraçado, e também sempre achou que sua mente era um pouco mais agitada que o normal, embora nunca tivesse feito comparações.. Mas agora sentia-se repetitivo e zonzo, suas zombarias não convenciam nem a ele mesmo e seus pensamentos eram nada mais que um turbilhão de imagens.
 Não sabia a que atribuir tanta diferença... mas sabia que era passageiro, ou que se acostumaria a diferença.. já se sentira diferente antes, muitas outras vezes.
 Ante à porta de saída notou que sua camisa estava amarrotada:
- Dane-se! - e saiu para mais um novo dia, opaco e amarelado como ontem...



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