Ali, com os pés na água, podia sentir o vento tocando seu corpo. Uma brisa leve, que fazia ondular ligeiramente as águas do rio, também purificava sua alma.
Era bom estar ali, sentia-se novo, revigorado, mas já era hora de partir.
O mundo aguardava ansioso sua visita, parecia não se importar com guerras nem com religiões, apenas ansiava por senti-lo pisar em sua crosta.
- Tudo bem, já é hora - ele disse - vamos andando!
Dito isso, levantou-se o mais rápido que pode, ainda estava se adaptando aquele corpo. Seu transporte o aguardava logo adiante, mas as águas já não estavam mais tão calmas quanto antes. Parecia que também necessitavam de sua presença ali.
- Eu voltarei, não tenha medo. Dê o melhor de si enquanto eu estiver fora. - despediu-se assim do rio.
Ao entrar na condução, deixou-a em piloto automático para que pudesse revisar sua lista de tarefas a cumprir. Onde estava mesmo?
Procurou a sua volta, mas as luzes começaram a piscar. Tinha de estar ali, ele havia deixado lá. Pode sentir uma alteração na velocidade, estava perto, era de suma importância encontra-la o quanto antes.
- Aqui está você então - falou enquanto removia as anotações de debaixo de uma enorme pilha de livros - achei que tinha me abandonado.
Mas que estranho, já não podia entender sua própria escrita, haviam lhe dito que isso aconteceria, mas ele lembrava-se de algumas das anotações.
- Bem, hei de estar preparado, ou não estaria aqui.
Percebeu que a condução havia parado, desceu desajeitadamente do transporte. Essa superfície era diferente, macia, diferente da borda do rio. Não podia ver suas mãos, mas sabia que não precisaria delas, não ali.
- Já é hora.
Pela primeira vez em sua existência sentiu-se preparado para o que houvesse de acontecer, estava em plenitude consigo mesmo, podia sentir o fluxo que vinha de lugar algum.
O obituário dizia que o homem sucumbirá aos ferimentos, mas na realidade ele os havia superado.
O Autor

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