Dormia de dia e de noite ficava acordado
Como quem dormia cedo achava estranho
Amarildo ficava esquecido em seu próprio sonho
Deve estar pensando que ele era meio sono - eu suponho
Mas me garantiu que ja estava bem alerta após o banho
Gostava de se vestir com umas roupas meio amarrotadas
Dizia que dava um ar solene à suas tropeçadas
É que também era meio cego de um olho, e um pouco coxo
E fazia sem igual macarrão com repolho, daquele roxo
Em certas lojas ele não entrava, porque o povo não aceitava
Ele dizia que não queria mesmo, se aprumava e caminhava
Pro Amarildo a vida corria sempre tranquila
Se lhe faltava filé de frango, ele comia carne de enguila
O povo olhava pra ele com um desprezo
Pelo cabelo desgrenhado, a roupa amassada e o chinelo preso
E ele se via Rei de todo mundo, pois atraia aqueles olhares curiosos
E todos eram nobres, que fitavam o Rei como se fosse plebeu, com seus olhares furiosos
Sozinho, Amarildo seguia com todo mundo, se sentindo junto nessas avenidas abarrotadas
E por um instante se fazia de louco, esquecendo assim das roupas amarrotadas.
Eduardo Bueno

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