E eu chorei sabe, pela primeira vez, vinda desse motivo. Não um choro impetuoso, like a tempestade, mas um chorinho manso que sai quando apertam nosso coração, algo estilo o que acontece quando se aperta uma esponja úmida. Senti uma dor funda, vinda não de mim, mas daquela que me compõe agora. Vi ali tanta boniteza, mas boniteza perdida, como quando a gente ama um bicho de pelúcia mas um dia percebe que ele é só farelo de espuma. Vi ali tantos momentos em palavras significativas que por um instante achei que fosse um texto meu, por um instante eu senti o que ela sentiu quando o mundo dela desabou, trazendo pro agora o fim de um futuro. Por algum motivo eu me perguntei quanto daquilo ela guardava, ainda olhava a flor seca ou o papel enrolado? Por um momento eu me perguntei quem eu sou.. E a resposta veio dela. Veio do olhar naquelas tantas fotos, veio do gosto desses tantos beijos, do conforto moldado desses abraços.. Veio do cheiro que fica quando ela passa, da alegria que eu tenho quando ela me amassa, veio dos momentos onde ela é quem entorta a boca, veio da leveza dos toques daquelas mãos que sabem ser pesadas e das certezas vindas das nossas conversas demoradas.. Eu sou eu, mas sou eu pra ela. Eu sou quem tirou o "nunca mais" dela, e plantou ali o "para sempre", eu sou um Mago de Oz particular, que botou um coração no peito do ciborgue; sou o alpinista ágil, que escalou os muros com fervor, pra poder viver no jardim secreto.. Sou eu quem lhe dei algo que eu trazia mas não sabia, lhe dei o Amor. Não o perfeitinho, das histórias de princesas e fadas, não o totalmente desastroso, que esgota as bilheterias; lhe dei o Amor que é meu, o verdadeiro, pra que a gente misturasse ele e fizesse o nosso. Eu sou o pintor que traz a cor, o parteiro que faz nascer o sorriso, sou a nascente que faz brotar as águas, sou atemporal, porque eu só tive hora pra chegar, sou um urso, ela bem sabe, e meu recheio não é farelo de espuma.
E eu percebo sabe o que? Que não é uma doação, é uma troca. Ela me ouve com uma atenção danada, que me assusta, porque arregala tanto os olhos que eu tenho de ficar atento pra segura-los se caírem a qualquer instante. Ela me compreende na essência - e até então eu não sabia que isso era possivel - e com aquela voz branda e um brilho lacrimoso de quem sente o mesmo que a gente, ela acalma minha fera, me levanta do chão sem sequer me tocar, e me faz parar de olhar o abismo pra começar a olhar as estrelas. Ela se dedica tanto, que enfim, eu me sinto correspondido. Ela tem vontade, vontade de construir comigo ao invés de me esperar trazer pronto. Ela tem vida, tem brilho, que é o que me faltava pra enxergar o caminho quando minhas luzes se apagavam.
E é daí que eu tiro tanta certeza, porque eu vejo nela a pureza, a delicadeza, a beleza, a riqueza, a grandesa, a dedicação, a paixão, o altruísmo, a força.. Eu vejo nela uma mistura - muito louca e espoleta - de um monte de coisa rara, tão raras, mas tão raras, que só poderiam existir em um unicórnio feito de chocolate com cheiro de maravilha e gosto de certeza misturada com tranquilidade e futuro.
E por isso eu digo, eu derrubo dela quantas lágrimas forem precisas, mas nenhuma delas de "nunca mais", e sim, todas de "para sempre".
Eduardo Bueno

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