Quem sou eu

Minha foto
Me descubro a cada dia, me transformo a cada novo passo e a qualquer momento ao dobrar uma esquina. É impossível ser descrito de maneira estável. Conheça-me através das postagens e algo mais.

30 de ago. de 2012

Amostra

Escuro. Abafado. Apertado... Suas mãos tocavam em paredes muito próximas, úmidas, o cheiro de bolor era intenso e incessante.. um corredor. Por onde havia entrado? Aqui e ali o chão era escorregadio. O desespero crescia dentro de si.. o medo, o pavor, a ansiedade.. inseguro, incerto.. A camisa colava em seu corpo, estava suando.. os pés descalços sentiam um chão gelado, a respiração tornava-se dificil, a garganta queimava, as pernas pesavam, os braços doíam. Como havia parado ali?
Não estava sozinho, um tênue arrastar tornava-se mais audível atrás de si, os olhos se arregalaram para ver algo mais, o medo escorreu sob sua nuca... morte!

Acordou assustado na cama do hotel, o melhor que seus 25 reais lhe permitiram pagar. Não havia luz do dia. Saiu pra fumar um cigarro. O hotel tinha uma pequena garagem, onde uma carriola de pedreiro esperava ansiosamente por um dia todo carregando cimento. A fumaça subia grossa e tomava formas variadas que logo eram varridas pelo vento gélido. Devia ser madrugada. Viajar o dia todo havia lhe custado a sanidade, estava obcecado em fugir para o mais longe possível daquela cena. Não suportaria reviver tudo aquilo e ficar impotente outra vez. Não poderia ferir sua família. Não poderia deixá-los se ferir. O cigarro finalizado queimou seu dedo. Teria de acender outro. Caixa vazia. Odiou-se por ser idiota. Odiou-se por não ter mais dinheiro. Odiou-se por não ter fumado a porra do último cigarro. Entrou no seu quarto e trancou a porta. Lavou-se e não viu a si mesmo no espelho, menos carne, mais pele, menos cor, mais rugas. A cama estava gelada. Pegou seu revólver na gaveta. Pegou as balas. Contou uma por uma e deu nome a todas. Seu pai, sua mãe, seu irmão, sua namorada... quem iria lhe matar? Fechou o tambor e fê-lo girar. Encostou o cano sob o queixo. Olhou uma última vez ao redor. Cortinas rasgadas, chão sujo, tomadas quebradas.. onde essa porra de humanidade ia parar? Olhou uma ultima vez pras suas mãos; fizeram tanto por ele... fariam-lhe um último favor. Puxou o gatilho. Nunca soube quem o havia matado.



Eduardo Bueno

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Grato pelo comentário. =]~