Estou caindo...
caindo a milhões de quilômetros, caindo de milhões de quilômetros. E eu não
posso me segurar, não, eu não posso me segurar. Pois estou caindo rápido demais
e a tudo que me agarro cai junto de mim. Nada pode me impedir de cair por
terra, nada mais pode cobrir minha visão e fazer com que eu não veja meu futuro
certo. Já não adianta mentir, mentir
mais, mentir de novo, ninguém mais vai ouvir minhas mentiras... e eu me
afogarei dentro da minha vida inventada. Não adianta fechar os olhos, eu posso
sentir. Sinto o vento queimando meu rosto, sinto meu corpo sendo empurrado pra
trás, sinto minhas mãos doerem e meus pés balançarem. Não há saída, há só o
destino, só o caminho a ser seguido, e não há nada pra aliviar meu pânico...
logo eu, que sempre acreditei ter as rédeas na mão. Mas hoje eu entendo, agora
eu entendo. Eu me trouxe até aqui, eu fui meu própria guia, eu que me desviei,
eu segui minhas vontades sem saber onde elas levariam, eu soltei minhas
palavras sem saber ao certo o peso de cada uma, eu plantei minhas sementes sem
saber a área que elas ocupariam quando crescessem, eu cultivei e cortei os meus
amores sem saber qual o potencial de cada um, eu briguei com meus amigos e
sentei na mesma mesa que meus inimigos, sem saber a qual caminho isso me faria
trilhar. Eu neguei a existência das verdades e fui crente na ausência de
castigos, eu busquei a minha fé, eu criei a minha crença e me afoguei nela, eu
senti a presença de algo grande, tão grande quanto o cosmos, e me apeguei a ela
como verdade. Eu vi horizontes poentes e nascentes, caminhei por campos nus e
plantações robustas, comi carne, fruta e sangue, músculo e gordura; amor, ódio
e rancor, clareza, pureza e negação. Eu criei laços e os rompi ligações, eu vi
maravilhas e presenciei aberrações, eu tive desejos e forneci redenções. Tudo
isso fez de mim o que sou agora, mais um corpo em queda livre, junto a tantos
outros corpos que eu não posso ver.
Mas o que é isso em minha cama? É meu corpo deitado de
bruços, sou eu, é minha carne, é a parte maior que me cabe em vida, é tudo com
o que eu posso trabalhar e elevar minha essência. Mas esse corpo não cai, e
agora eu sou esse corpo novamente. Um susto me enche de oxigênio, o combustível
que concerne a esta máquina ferramenta; agora estou em pé
novamente, e conheço o futuro de meus passos. É hora de
inovar.
Eduardo Bueno

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