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Me descubro a cada dia, me transformo a cada novo passo e a qualquer momento ao dobrar uma esquina. É impossível ser descrito de maneira estável. Conheça-me através das postagens e algo mais.

4 de fev. de 2012

Brilho Fosco

 Por verdejantes campos ele caminhou, semeou sua beleza por onde passou. Passou a lâmina em muitos inimigos e os lábios em muitas mulheres. Saltimbancos faziam de seus atos peças teatrais, seresteiros o levavam as alturas por meio de suas canções, e era conhecido em lugares onde sequer havia estado. 
 Pelos muitos festivais em que participou, muitas riquezas ele arrecadou. Armaduras de ouro detalhadas em madrepérola, espadas com botões encrustados das mais belas pedras preciosas, vestes de linho, debruadas com o mais rico dos veludos, e também o favor de muitas donzelas, as quais levou consigo também o coração.
 Por todo o reino barris de vinho e hidromel eram abertos em seu nome, assim como muitos leitões eram assados. Todos os jovens meninos ansiavam por se tornarem seu escudeiro e terem para si um pouco daquela glória.
 Ficou tão conhecido que as amas de leite já não contavam mais histórias dos tempos de outrora para seus vigiados, mas as histórias atuais, dos grandes feitos do cavaleiro de armadura dourada.

 Mas eis que a guerra estourou no reino, vinda das distantes ilhas do mar salgado. Homens cruéis aportavam no reino e queimavam as docas para que não houvesse alternativa aos aldeões. Mulheres eram violadas e crianças eram queimadas, homens eram esfolados e enforcados. Milhares de soldados do reino eram abatidos para cada centena dos invasores.
 O Rei convocou então o cavaleiro dourado e ordenou, que em nome de Sua Graça, adentrasse nos campos de batalha e abatesse tantos quanto pudesse.
 O cavaleiro era tão bom na liderança quanto era nos flancos e com a ajuda de sua espada a batalha foi ganha e o reino podia novamente dormir em paz.... mas não sem o seu preço.
 Nos campos de batalha, sua armadura foi amassada pelos golpes, perdeu o brilho devido a lama e ao arranhões, seu rosto ganhou um profundo traço de carne e sangue, provocado pela espada inimiga, seu olho fora dilacerado por uma flecha. As pernas que o levaram por tantos lugares ja não eram suficientes para mantê-lo em pé, e a falta de duas costelas dobrou sua silhueta para a direita.
 Ao retornar com seus ferimentos e seus feridos dos campos de batalha, esperou as mais altas saudações dos nobres, os mais molhados beijos das mulheres, as mais maravilhosas canções dos seresteiros e as mais belas peças dos saltimbancos; mas agora estava feio, cego e torto, e não houveram saudações. Houveram suspiros, choros, gritos, rezas e pragas. 
 Enquanto esteve fora, lutando pela liberdade dos homens e pureza das mulheres, surgiu um novo cavaleiro, de armadura acobreada e belos cabelos encaracolados, que gabava-se de ter vencido muitos inimigos e amado muitas mulheres, mas que ainda não tinha sequer pelos no rosto.
 O, agora ferido pela guerra, cavaleiro, encontrou lugar apenas nas cocheiras e nas tabernas mais imundas, os seresteiros encontraram outras canções para cantar e os saltimbancos outras peças para interpretar. Até as donzelas haviam encontrado outros cavaleiros para sonhar.
 Por outros tantos anos ele vagou, sem armadura nem espada, sem cançao nem teatro, sem beijo nem favores, sem festivais e sem glória.
 Seria apenas o curso natural da vida ou seria a vaidade dos homens? Ele agora valia menos do que antes? Onde estavam seus feitos agora?
 Qual o valor de uma vida?

- Que os corvos os carreguem - disse entre uma crise de tosses e outra.....





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